Quando decidi conhecer a Geórgia, eu já havia definido quais  sítios do país visitar, e um deles, com certeza,  seria a bela Mestia, uma cidade inconfundível, com a presença de rara arquitetura com fortes traços medievais do século XI, mas não tão similar quanto as cidades medievais da Europa Ocidental. Tudo muito diferente, exótico, interessante e impactante.

Vista da cidade de Mestia e suas lindas torres medievais.

Então, quando se tornou possível minha primeira viagem ao país, fiquei entusiasmado em poder conhecer as seculares torres de Mestia.  A felicidade e alegria foram maiores quando lá cheguei, depois de uma longa e cansativa viagem, que descreverei em detalhes. Mas acredito que também será importante apresentar um pouco da história da região de Svaneti, onde se localiza Mestia, na Geórgia.

A estrada na Geórgia, próxima da cidade de Zugdidi, e o carro alugado.

A viagem de Tbilisi a Mestia foi bastante longa e cansativa. Eu viajava sozinho, dirigindo e tentando me guiar por placas de trânsito, mas foi tudo muito difícil, primeiro pelo alfabeto georgiano, segundo pela falta de boa sinalização e terceiro pela inexistência de algumas estradas e de outras que estavam fechadas para obras. Voltar do ponto onde eu chegava significava mais de uma hora de retorno, por isso, depois de oito horas de viagem, eu cheguei à cidade de Zugdidi, onde iria pernoitar, para, no dia seguinte, seguir para Mestia.

A Praça da Liberdade no centro de Zugdidi.
O Palácio Dadiani, em Zugdidi, hoje é um museu de história natural.

Mesmo bastante extenuado, vivi um dos momentos mais incríveis em Zugdidi. Cheguei com fome ao Shorena’s Guest House e perguntei, através do Google tradutor, onde se localizava um restaurante por perto. Eis que toda a hospitalidade dos georgianos me deixou desnorteado: Dona Shorena pediu que eu me aprontasse e depois fosse à cozinha, que ela estaria preparando o meu jantar. Note bem que já passava das 21h! Eu não pude acreditar no que estava acontecendo e a partir daquele momento a minha paixão pelos georgianos e pela Geórgia aumentou consideravelmente. Vale lembrar que eu já tinha sido muito bem recebido em Tbilisi, logo, esse fato só veio confirmar que aquele povo é diferenciado.

O Hotel.
O jantar.

No dia seguinte peguei a estrada em direção à Mestia. Que bela paisagem! No início fui recepcionado por vaquinhas cruzando as estradas da Geórgia, querendo talvez afirmar que elas eram as donas… Muito graciosas. Claro que foi um pouco perigoso, mas tudo transcorreu sem problemas. 

Mas depois… Vislumbre que maravilha! Foi uma viagem encantada, com vários pontos de tirar o fôlego. Eu não podia acreditar no que estava vivendo. Um total encantamento.

Bela estrada entre Zugdidi e Mestia, na região de Svaneti
Um lindo túnel escavado na rocha. Que beleza de estrada!
A estrada chegando em Mestia e a primeira torre de vigia medieval.

Ao chegar em Mestia fui direto para o hotel que eu já havia reservado, e a hospitalidade georgiana se fez presente novamente. Assim que cheguei ao Guest House Chartolani #4, a dona do hotel, senhora Nanuka, ofereceu-me um café, que eu aceitei pensando que seria um cafezinho, mas eis que ela me chega com uma enorme bandeja com um café completo, com bolo, frutas, leite, café, queijo, pão e tudo mais… É assim a Geórgia.

Local no Guest House Chartolani #4 onde fui recepcionado por Dona Nanuka.
Vista bucólica próxima ao Guest House Chartolani #4.

Mestia se localiza na região denominada de Svaneti, uma região histórica e remota da Geórgia, famosa por sua paisagem fascinante, tradições antigas e torres de vigias medievais. Essa região foi capturada pela câmera de um fotógrafo e alpinista italiano, Vittorio Sella. Suas fotografias tomadas em regiões montanhosas são consideradas as mais lindas. Ele esteve visitando Svaneti no final do século XIX, e, dentre suas fotos, selecionei aquela que apresenta de forma peculiar um grupo de pessoas da etnia svan, população originária da região de Svaneti. Aprecie a foto. Eu adorei! 

Georgianos da etnia svan que habitam a região de Svaneti, a foto é de 1890.

Foto do site: https://www.georgianjournal.ge/discover-georgia/31726-one-of-the-first-photos-of-svaneti-captured-by-famous-italian-photographer.html

Após o delicioso café, fui conhecer Mestia e andei por suas ruas com a percepção aguçada para poder fitar todos os detalhes: as casas, os moradores, as montanhas e as torres medievais. Queria mesmo era poder voltar no tempo e presenciar as disputas que a população de Svaneti promoviam entre as famílias, e tinham nas torres o local para se proteger. As torres históricas com aspecto medieval se destacam por toda a cidade e era ali que as famílias se escondiam nos momentos de conflito. Cada clã tinha a sua fortaleza e, durante esses períodos, traziam seus animais e alimentos para dentro do local enquanto se abrigavam no último andar da torre, batalhando com a outra família ou com possíveis invasores.

Uma bela torre de vigia medieval em Mestia e a moradia familiar à esquerda.

No último piso das torres de vigia encontram-se várias aberturas que servem de vigilância e/ou para arremessar objetos ou mesmo para atacar com armas de fogo. Os Svan eram belicosos e defendiam a honra da família quando dilacerada por um assassinato em brigas às vezes por motivos fúteis, já que eles acreditavam que, para manter o poder e a honraria da família diante do povoado, era  necessário o embate com a família do assassino para que um deles morresse por conta da morte de um dos seus. Mas esses fatos ocorriam provavelmente entre os séculos X e XIII ou um pouco mais.

Uma antiga torre de vigia medieval em Mestia e uma passagem por parte da moradia familiar à direita.

Essa tradição era denominada de “tirar sangue” e muitas vezes levou a uma guerra duradoura entre famílias. Durante séculos, os reis tentaram mudar essa tradição, de forma que, aos poucos, somente algumas famílias Svan ainda acreditavam que essa fosse a única maneira de resolver a situação da vingança. Não há notícias de que isso tenha ocorrido recentemente, muito pelo contrário, pois essa tradição se perdeu no tempo e hoje os georgianos são amistosos, alegres, cordiais e extremamente hospitaleiros.

As torres de vigias medievais de Mestia são impactantes.

Em tempos de paz, essas belezinhas são usadas para estocagem de alimento e proteção de animais das famílias locais.

Existem outras tradições interessantes na Geórgia, uma das mais seculares é ainda celebrada pelo povo de Svaneti. A “Lamproba” é um ritual pagão praticado pelo povo svanetiano todos os anos, no início da primavera, setenta dias antes da Páscoa. Nessa festa, as pessoas, principalmente os agricultores, fazem tochas de bétula ou carvalho e as levam até o cemitério local, com  o objetivo de aquecer e dar luz às almas dos antepassados. Durante um momento, cantando e dançando, pedem uma colheita rica e um bom tempo quente. Como não presenciei esse ritual, achei interessante este vídeo da “Lamproba”.

A Casa Museu de Mikheil Khergiani.

Desde o momento em que cheguei em Mestia, fiquei buscando a possibilidade de visitar uma das torres de vigia, mas me sentia limitado, pois como todas são propriedades particulares, e devido às dificuldades da língua, ficava difícil o contato com os moradores para o intento, até que descobri que havia na cidade a Casa Museu de Mikheil Khergiani. Fiquei feliz ao ver que o museu, além de abrigar materiais e objetos pertencentes ao famoso alpinista georgiano Mikheil Khergiani (1935-1969), possui uma bela torre de vigia medieval que eu pude conhecer.

Como acredito que seja um tipo de construção bem rara para muitos, achei interessante apresentar partes da torre de vigia medieval da Casa Museu de Mikheil Khergiani através de fotos. Veja:

Móveis, vasos e ferramentas de trabalho agrário do primeiro piso.
A parte superior da torre e as várias aberturas de vigilância.
A abertura de vigilância da torre.
A boa visibilidade a partir da abertura de vigilância da torre.

Para concluir o passeio por Mestia, eu gostaria que ficasse mais do que esclarecido a todos que o meu carinho e amor por aquele povo e país é tão grande que não consigo explicar de forma racional os motivos dessa paixão. Senti que vivi momentos de extrema beleza associada com atitudes de enorme hospitalidade e educação transmitidas pelos georgianos, mesmo com a dificuldade da língua. Eles sabem que falam uma língua rara, mas mesmo assim estão sempre a sorrir e a demonstrar facialmente o desejo de nos dizer: “Obrigado por vir à Geórgia, estamos aqui para bem recebê-los”.

Mais um bom exemplo da felicidade que senti em Mestia. Em minhas andanças, perguntei a algumas crianças se aceitavam sair em minhas fotos, e o que se percebe é que, mesmo sem pose prévia, não se furtaram em me honrar com o prazer das fotos, então……

Crianças georgianas em Mestia.

Como sempre visito templos religiosos por onde passo, não foi diferente em Mestia, onde conheci a Igreja ortodoxa de São Nicolau, que fica estrategicamente no alto de uma suave colina de onde se tem uma vista maravilhosa da cidade  e de suas belas e seculares torres de vigia.

Igreja ortodoxa de São Nicolau.
Altar da Igreja ortodoxa de São Nicolau.

Imaginou, então, viajar para a Geórgia, um país onde a diferença de nossas línguas pode nos trazer embaraço, mas que a beleza sutil do povo e do país suplanta tudo? Eu consegui superar vários desafios. E você, teria coragem? Que tal se dar uma chance conhecendo aquele incrível país?

Relíquias de caminhões da época em que a Geórgia fazia parte da ex-União Soviética.
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7 thoughts on “Mestia – a cidade das torres medievais”

    1. Que bom que você é uma seguidora do blog. Você já se inscreveu para receber as novidades???? Já leu os outros posts da Geórgia??? É um povo e um país incrível. Eu voltaria agora em maio, remarquei para 23 de novembro. Desta vez terei um guia em espanhol, pois a língua georgiana é impossível.

  1. Que viagem no tempo!!!! Maravilhosa descrição!!! Dessa forma, realmente dá vontade de conhecer. Obrigada por compartilhar suas experiências de viagem.

    1. Obrigado pelos seus comentários Edna. Eu tenho o prazer de compartilhar minhas descrições dos territórios que conheço para levar cada um a sentir como se estivesse viajando e se emocionando comigo. Você sabe como eu amo a Geórgia.

    1. Obrigado pelos seus comentários Douglas. Eu tento fazer com que minhas descrições dos territórios leve cada um a sentir como se estivesse viajando e se emocionando comigo.

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