Muitas cidades e lugares acabam sendo fortemente identificados ou relacionados a um grande artista, e Arles não escapa dessa premissa, ela respira Van Gogh para onde quer que o viajante se dirija. Eu vivi momentos muito reconfortantes nessa bela cidade antiga, datada de longo tempo, pois se confirma que sua fundação ocorreu no século VI a.C., pelos gregos. Em 123 a.C. os romanos ocuparam-na e construíram vários monumentos importantes que ainda podem ser visitados, como o Anfiteatro Romano, o Teatro, as Termas de Constantino, o Circo Romano (praça central), o Arco Triunfal e o Cemitério Romano (Alyscamps), além de muros que a cercam com torres em pontos estratégicos. 

Vista panorâmica de Arles, em destaque o Anfiteatro ou Arena Romana, à direita, e o Teatro Romano, à esquerda.

Foto do site: https://www.triphobo.com/places/arles-france

Inicialmente relatarei um pouco do poder de reanimação que Arles me proporcionou, pois já narrei no blog que em 2015, ao chegar a Paris, adoeci gravemente com uma embolia pulmonar e assim necessitei refazer todo o meu planejamento inicial de viagem, diminuindo bastante minha estada na Provença Francesa. Depois de uma semana de descanso em casa de amigos em Castillon-du-Gard, próximo de Avignon, fui de ônibus para Arles, onde passei três dias esplendorosos. Foi realmente revigorante.

O portentoso Anfiteatro Romano de Arles.
Ruínas de muralhas romanas na Porta da Cavalaria.
Pitoresca Rue Molière de Arles.

Foto do site: https://www.architecturaldigest.com/story/arles-france-art-destination.

Quem tem referências do trabalho artístico impressionista de Van Gogh com certeza já vislumbrou alguma imagem de Arles, pois foi um dos locais onde o pintor produziu mais de 200 pinturas a óleo e desenhos, entre os anos de 1888 e 1889. Ali ele encontrou um céu azul, girassóis amarelos, estrelas cintilantes, jardins floridos, cafés aconchegantes, simpatia nos moradores e as cores verdejantes do campo.

“Está fazendo um calor glorioso, sem vento, que me cai muito bem. A luz do sol é uma luz que, por falta de uma palavra melhor, só posso chamar amarela. É um amarelo pálido, de enxofre, de limão siciliano, de ouro. Como o amarelo é lindo! Ah, eu queria que você um dia pudesse ver e sentir o sol do sul” – Carta de Vincent Van Gogh a seu irmão Theo, em setembro de 1888.

A seguir, uma das obras de Van Gogh: “Les Arènes d’Arles”. Primeiramente apresento o cartaz que é colocado próximo ao local da inspiração do pintor: o Anfiteatro Romano, onde, no momento da pintura, ocorria uma tourada. Mais adiante eu exponho uma foto de 2015, do interior do Anfiteatro Romano sem a tourada. 

Cartaz de “Les Arènes d’Arles”, de Van Gogh, exposto próximo ao Anfiteatro Romano.
O Anfiteatro Romano de Arles, em foto de 2105, aberto para touradas e visitas.

É incrível estar em Arles e acompanhar os passos que Van Gogh percorria para deixar, em diferentes pontos, pinceladas daquilo que o seu olhar captava de melhor. Quando se passeia pela cidade, o impacto e a contemplação vão ficando extremamente aguçados. Não se consegue fugir da sensação de beleza, e, às vezes, pode um viajante do presente ser levado ao passado e sentir Van Gogh caminhando ao seu lado, com seus pincéis, tintas, tripés e telas. Arles tem essa força. 

Noite Estrelada sobre o rio Ródano, em Arles, 1888 (Museu d’Orsay).

O Centro de Turismo de Arles fornece um folder com um mapa para passeio a pé por nove lugares retratados por Van Gogh. Caso queira, pode ter aceso por este site: https://kiosque.arles.fr/static/files/Parcours_VG_web_03.pdf. O folder é apresentado em francês e inglês e é interessante, pois destaca os locais onde foram pintadas as mais importantes obras do artista no curto período em que viveu em Arles.

Apresento a seguir outra obra de Van Gogh pintada em Arles. Vemos um cartaz com a foto da pintura desenvolvida pelo artista junto ao local de sua inspiração, que nesse caso é o Café La Nuit, na Praça do Forum, e mais adiante mostro uma cópia da pintura do artista: “Terrasse du Café le Soir” ou “Terraço do Café à Noite”.

Cartaz do “Terrasse du Café le Soir”, de Van Gogh, exposto diante do Café eternizado em 1888.
O Café la Nuit, na Praça do Forum, em foto de 2015.
Quadro original de Van Gogh: Terrasse du Café le Soir, 1888 (Museu Kroller Muller)

Van Gogh também pintou em Arles obras de profunda sensibilidade e sutileza, como o quadro “La Chambre de Van Gogh à Arles” ou “O Quarto de Van Gogh em Arles”, de 1888, que hoje está exposto no Museu Van Gogh, em Amsterdan. Após ter arrancado parte de sua orelha, ele pintou o quadro que foi eternizado e o fez ficar conhecido internacionalmente: “Autoportrait à l’oreille bandée” ou “Autorretrato com a orelha enfaixada”, em 1889. Na verdade, Van Gogh não teve noção em vida do alcance de tal ato.

O Quarto de Van Gogh em Arles, 1888 (Museu Van Gogh, em Amsterdan).

A profusão de autorretratos – foram produzidos 35 quadros a óleo entre 1886 e 1889 – aliada à peculiar relação que ele mantinha com o próprio corpo, cujo ponto culminante foi o episódio da mutilação de sua própria orelha,  retratada posteriormente, coloca Van Gogh como o artista que introduziu o próprio corpo como matéria-prima da arte.

“Em 1888, na cidade francesa de Arles, aconteceu um dos episódios mais famosos da história da arte: um estrangeiro foi até um bordel da cidade e entregou a uma garota que estava no local um pacote com um pedaço sangrento de sua própria carne. Era Vincent Van Gogh, que acabara de cortar a própria orelha. Na época, tratava-se de um pintor desconhecido e sem sucesso, mas que posteriormente se tornaria um dos artistas mais famosos de todos os tempos.” (trecho extraído do site: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/01/05/o-que-aconteceu-na-noite-em-que-van-gogh-cortou-a-propria-orelha.ghtml).

Autorretrato com a orelha enfaixada, 1889 (Instituto Courtauld).
Os Doze Girassóis numa Jarra, 1888 (Neue Pinakothek, Munique).

Sei que se eu pudesse escreveria muito mais sobre as histórias de Van Gogh em Arles, mas essa peculiar cidade tem mais a nos oferecer, mesmo que o pintor seja uma força presente. Ao caminhar a esmo pelas vielas e ruas, fui me deparando com moradias bem significantes, algumas simples, mas com detalhes arquitetônicos que realçavam um charme, ou então descobria, nos cantinhos da cidade, casas com hera, plantas trepadeiras ou vasos de flores nas soleiras, que destacavam o ar bucólico de Arles. Outras construções eram estabelecimentos comerciais importantes na cidade, como, por exemplo:

1 – Restaurante L’Atelier de Jean-Luc-Rabanel.

2 – Restaurante La Grignotte, eu o indico, pois o almoço foi muito bom.

3 – Le Monde de Sophie.

O restaurante L’Atelier de Jean-Luc-Rabanel, em Arles, tem uma gastronomia de primeira.
O restaurante familiar La Grignotte, em Arles, é excepcional. Este eu conheci.
O Le Monde de Sophie é restaurante do tipo descolado, pratos rápidos. Muito Bom.

O ar medieval da cidade é marcante e faz com que o viajante volte no tempo. Caminhar por suas ruas é um prazer. Eu, particularmente, gosto muito de andar meio sem direção e ir descobrindo cantinhos, fachadas, gatinhos, janelas entreabertas, e assim vou sendo arrebatado pelo lugar, por suas histórias e segredos. Penso que viajar tem essa grandeza. Apresento a seguir o meu olhar e percepção desses passeios. Quer ter uma sensação à distância? Reporte-se a Arles.

Caminhando e fotografando na Rue Genive, nº 67.
Vasos de flores nas soleiras da Rue Girard le Bleu, nº 36 e 38.
Casa com hera na Rue du Grand Couvent, nº 27
Rua com moradias rústicas, janelas coloridas, heras e arbustos floridos.

Foto do site: https://culturepassport.co/charming-arles-france/

O tempo todo em que eu estive em Arles tinha uma sensação de felicidade por ter suplantado a embolia pulmonar e conseguido conhecer essa atraente cidade da Provença Francesa. Arles sintetizou a imagem de uma cidade que foi construída e reconstruída por diferentes povos, e assim foi imprimindo características e estilos relevantes. Qualquer viajante percebe a forte presença da história antiga e medieval muito bem retratada na estrutura da cidade, principalmente nos belos monumentos romanos.

Casas com plantas trepadeiras na Rue Waldeck Rousseau.
Flores na janela na Rue Girard le Bleu, nº 10. Um cantinho encantador.
Place du Forum com bons restaurantes e um agradável ar de descontração.

A Place du Forum definitivamente vale uma visita. É uma pequena praça arborizada na cidade velha, muito movimentada e cheia de restaurantes ao ar livre. O edifício no canto da praça era um dos meus favoritos, pois tinha uma fachada neutra com venezianas em tons pastéis e flores coloridas penduradas em cada janela. Numa noite tirei foto deste prédio que me cativou. Pode não ter ficado maravilhoso, mas espero que goste.

“La Taverne du Forum”, Café, Restaurant, Pizzeria & Creprerie, na Place du Forum.

Para o jantar, escolhi o Bistrot Arlésian, na Place du Forum, onde saboreei um entrecôte macio e maravilhoso, acompanhado de foie gras, fritas e, é claro, como não falta na França, um bom vinho. Para finalizar, a deliciosa sobremesa francesa: o crème brûlée.

“Crème brûlée” é uma sobremesa feita com creme de leite, ovos, açúcar e baunilha, com uma crosta de açúcar queimado por um maçarico, passando o fogo a uma bebida alcoólica que se coloca sobre o creme. É geralmente servido gelado”. (Do site: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%A8me_br%C3%BBl%C3%A9e.

“Crème brûlée”, sobremesa típica da França, com uma crosta de açúcar queimado por um maçarico. Uma delícia!
Entrecôte maravilhoso, acompanhado de fritas. O foie gras foi a entrada. É certo que não pode faltar um bom vinho francês.

A história do antigo Teatro Romano de Arles é interessante e conflitante. Após a ocupação da cidade pelos romanos, durante o longo Império de Cesar Augusto, por sua vontade e iniciativa, o teatro foi construído e inaugurado aproximadamente no ano de 12 a.C., transformando-se rapidamente num polo de irradiação da cultura grega em Arles. As apresentações teatrais eram praticamente de textos gregos, com os atores encenando dramas, tragédias, comédias ou pantomimas gregas.

O Jardin d’été (Jardim de verão) e a Torre Sul, uma das portas de entrada para o Teatro Romano.

Arles foi fundada pelos gregos por volta de 530 a.C., entretanto, a cidade foi ocupada e transformada em colônia romana no ano de 46 a.C. e assim permaneceu por quase quatro séculos, até que o Cristianismo tomou força como poder dominante na Europa, a partir do início do séc. V. Como a Igreja Católica não aceitava a difusão de uma cultura pagã que cultuava deuses do panteão grego e romano, o Teatro Romano de Arles teve seu uso alterado, e congregações dos jesuítas e das irmãs da misericórdia inauguraram colégios no espaço do teatro. Imagine viver na época de ouro de Arles e ter o prazer de ver encenações como Antígona, Édipo ou Electra de Sófocles, o grande dramaturgo grego. Mas, infelizmente, as cortinas se fecharam!  

Ruínas do Teatro Romano de Arles, onde se encenava Antígona, Édipo e Electra, do dramaturgo grego Sófocles.

Foto do site: https://www.pinterest.cl/pin/166914729927087560/.

Pátio central do Teatro Romano e “as duas viúvas”: colunas que permaneceram, das cem que decoravam a parede do palco.
“As duas viúvas”, colunas do Teatro Romano que permanecem sozinhas.

A Igreja de Saint Trophime ou Catedral de Saint Trophime d’Arles é uma igreja católica apostólica romana. Foi construída entre os séculos XII e XV com predominância do estilo arquitetônico românico. As esculturas do portal da igreja, em particular o Juízo Final e as colunas do claustro adjacente, são consideradas alguns dos melhores exemplos de escultura românica.

Catedral de Saint Trophime d’Arles.
Detalhes com colunas e santos da Catedral de Saint Trophime d’Arles.

Arles é surpreendente, e digo que ainda teria muito o que descrever, mas deixo para outra oportunidade. Caso tenha ficado com um enorme interesse de conhecer um pouco mais dessa bela cidade da Provença Francesa, coloque-a no seu próximo roteiro, tenho certeza de que não se arrependerá. Para que desfrute mais um pouco de Arles, selecionei com carinho este vídeo. Viaje!

A imagem de destaque foi retirada do site: https://www.robertharding.com/index.php?lang=en&page=search&s=brasserie&smode=0&zoom=1&display=5&sortby=1&bgcolour=white

Compartilhe com os seus amigos.
Share on Facebook
Facebook
Email this to someone
email
Share on LinkedIn
Linkedin
Print this page
Print

6 thoughts on “Arles – Surpresa na Provença Francesa”

    1. Saudosa diretora Viviana, muito obrigado pelo seu comentário. Arles foi muito importante após a embolia pulmonar que tive em 2015. Ficou marcante para mim. Que tal conhecer numa próxima ida à França???

  1. Van Gogh foi um artista incrível, e você o descreveu de forma esplêndida, assim como, o percurso pela cidade que tanto significou em sua trajetória artista.

    1. Querida Edna, Van Gogh é incrível sim, mas te confidencio que dos impressionistas eu gosto muito de Camille Pissarro. Um detalhe eu não coloquei no texto, foi que Van Gogh em vida somente vendeu 1 quadro e hoje seus quadros são vendidos por milhões de dólares. Incrível!!!!!

    1. Meu querido amigo Bruno, que bom que você gostou do post, fiz com muito carinho, pois amei Arles. O post realmente tem boas descrições e tentei postar fotos que realmente representasse bem Arles, já que a relação da cidade com Van Gogh é muito forte. Você precisa conhecê-la. Obrigado pelo comentário.

Gostou? Deixe aqui o seu comentário.