Por vários motivos, visitar a Geórgia foi um grande desafio, a começar pelo temor que eu tinha em me comunicar com sua gente, já que a língua georgiana, falada pela maioria dos habitantes do país, é rara e possui um alfabeto ainda mais incomum e único no planeta. Eu sabia que poderia passar por momentos bastante desafiantes, pois o fato de não ser fluente no idioma inglês me limitaria ao mínimo de falas para poder desenrolar qualquer tipo de comunicação. Além do português – que muitos gostam, mas poucos conhecem -, eu falo espanhol e francês, o que na Geórgia não ajuda muito, na medida em que esses três idiomas não são comuns por lá e, depois do georgiano, a língua mais usada no país é a russa. Sendo assim, ter ido à Geórgia e não ter passado por problemas graves de comunicação é algo inacreditável.

Para alguns linguistas, a língua georgiana é uma das mais antigas do mundo. Pelo que pude apurar, a forma falada surgiu no segundo milênio antes de Cristo, enquanto o alfabeto georgiano foi criado em 284 a.C, pelo Rei Farnabazo I, do Reino da Ibéria, um dos reinos que deu origem à atual Geórgia. Mesmo assim, ainda existem fontes greco-romanas que afirmam que os georgianos já tinham o seu próprio alfabeto desde o século V a.C., numa época bem anterior à pré-cristã.

O belo, milenar e raro alfabeto georgiano.

Foto da imagem: Facebook Pessoal Georgiano

Se você nunca havia visto o alfabeto georgiano, poderá ficar apaixonado e extasiado. Da mesma forma que é lindo, é também realmente bastante indecifrável. Ele é um alfabeto usado apenas na Geórgia, e por isso tão raro. Interessante são as palavras de Anano Chikhradze, uma georgiana, sobre a riqueza, a antiguidade e a raridade do alfabeto georgiano:

“Como sabem, há cerca de 5000 línguas em todo o mundo. No entanto, existem apenas 14 scripts (forma de escrever) únicos e o georgiano é um deles. O sistema de alfabeto georgiano é muito sofisticado. Poderão presumir que a língua georgiana não é difícil, quando descobrirem que lemos todas as letras da palavra e que não temos quaisquer cartas silenciosas. No entanto, na realidade, é uma linguagem bastante complexa e diversificada, com suas regras gramaticais e muitos sinônimos.” (Anano Chikhradze – do site: https://www.itinari.com/pt/georgian-script-one-of-the-oldest-in-the-world-rnuv).

Um letreiro de venda de produtos numa estrada da Geórgia. O que será que estão vendendo?

Para exemplificar, Geórgia em georgiano não se chama Geórgia! Chama-se საქართველო, pronunciado como Sakartvelo, o que significa “terra dos kartvelebis”. Esse nome, por sua vez, vem de um lendário chefe pagão, Kartlos, que seria o “pai” dos georgianos em sua vasta mitologia.

Algo importante é que os georgianos se orgulham de ter o seu próprio alfabeto por ele ser um dos mais antigos do mundo. Por isso, quando chegar à Geórgia, não se esqueça de dizer “Gamarjoba” (გამარჯობა), que significa “Olá” e pode ser traduzido como “vitória”, o que reflete o passado de um país que sofreu ataques intermináveis.

Outra questão bem inusitada é que no georgiano, ao contrário do inglês e de muitas outras línguas, a terceira pessoa não tem gênero. Quando os georgianos querem identificar uma pessoa em uma conversa, eles dizem “isso” ao invés de “ele” ou “ela”.

 

Letreiro de estrada na frente de um terreno vazio. Supus que estava à venda e por 380 laris georgianos (a moeda do país). Será?

Em resumo, nos 12 dias em que lá estive, eu suplantei o problema da língua e do alfabeto com bastante maestria. Quem conhece a Geórgia afirma quase sempre que por lá ocorrem alguns problemas a serem suplantados, entretanto o contato com os georgianos se estabelece numa esfera elevada de relação amistosa, generosa e hospitaleira. Foram várias as demonstrações de afeto e carinho do povo georgiano durante minha estadia naquele belo país.

Imaginou, então, viajar por um país onde esse alfabeto aparece nos letreiros das lojas, nos ônibus, no metrô, no aeroporto e, enfim, em todas as partes? Eu consegui superar esse grande desafio. E você, teria coragem? Que tal dar-se uma chance conhecendo aquele incrível país?

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4 thoughts on “

Geórgia – o país do delírio!”

  1. Marcos, eu já retorno à Geórgia, saindo de Roma no dia 20 de maio e ficarei até o dia 1 de junho. Realmente este país mudou meus conceitos sobre amabilidade de um povo e a maneira de encarar uma viagem, pois vivi momentos de enorme emoção e carinho por parte dos georgianos. Nunca tinha vivido algo igual. Vamos à Geórgia?

  2. Querida amiga Maria Helena ainda tem tempo para estar na Geórgia na minha próxima ida, eu saio do Brasil no dia 3 de abril, mas em Tbilisi chegarei no dia 21 de maio e no país ficarei até 1 de junho. O meu roteiro já está definido, mas desta vez terei uma guia georgiana que fala espanhol, me proporcionando um maior contato com o povo georgiano, assim eu terei mais comunicação entre eles e eu.

  3. Que descrição primorosa desse país tão desconhecido por todos. Certamente suas palavras causarão muita curiosidade no leitor. Ao menos pra mim, se pudesse partiria pra lá amanhã, que alfabeto ímpar! Te agradeço, mais uma vez,Ronaldo, por nos instigar a fazer contatos com esses novos e maravilhosos territórios.

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