Amigos e seguidores do blog criaram uma expectativa quanto ao primeiro post que eu escreveria sobre minhas viagens pelo Brasil. Depois de muito refletir e pensar, decidi apresentar minhas andanças por São Gonçalo do Rio das Pedras, em Minas Gerais. Fiquei tão surpreso com o sucesso de visualizações e comentários do post que fui tomado pelo ar tupiniquim e tropical e assim me pus a escrever sobre este paraíso litorâneo do Brasil: Paraty.

Ruas de Paraty após avanço da maré no período de lua cheia. Lindo o reflexo dos casarões.

Foto do site: https://s204818.gridserver.com/wp-content/uploads/2019/11/Centro-Hist%C3%B3rico.jpg

Já vivi muitas experiências em Paraty e me recordo de fatos positivos e de outros conflitantes, aqueles momentos de vivenciar e chorar de emoção com histórias simplórias e alguns  de muito desgaste físico por conta do trabalho profissional de geógrafo no distrito de Paraty-Mirim. Enfim, perdi realmente a conta de quantas foram as minhas viagens a Paraty, mas reafirmo que gosto muito de estar nessa cidade colonial. Mas não podemos esquecer que, infelizmente, houve um momento no período do Brasil Colônia que Paraty foi um porto cuja principal atividade era a entrada contrabandeada de escravos que vinham da África e eram vendidos e distribuídos para diversas regiões do Brasil.

O Centro Histórico de Paraty com lindos casarios coloniais e bela iluminação noturna.

Como os seguidores já têm conhecimento, não sou historiador, mas sempre acho muito importante traçar o processo de criação do território que irei descrever, entretanto, não consegui confirmar com exatidão o ano de fundação de Paraty, uns afirmam ter sido em 1667 e outros citam 1677. Creio que a data mais provável seja 28 de fevereiro de 1677, quando o rei de Portugal D. Afonso VI ratificou a fundação e a emancipação de Angra dos Reis, dando-lhe o nome de “Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty”.

Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, construída em 1873 e palco principal das celebrações da Semana Santa e da Festa do Divino.

Já que destaquei a data de fundação de Paraty em 1677 e comentei que o porto foi a entrada de milhares de escravos, gostaria então de relacionar esses fatos a aspectos importantes que vinculam Paraty com a história dos afrodescendentes no Brasil. O Centro Histórico de Paraty foi erguido pelos escravos. Assim como no Brasil, em Paraty não foi diferente, foram os escravos que britaram pedras, amassaram a massa, colocaram os sinos nas igrejas, revestiram os belos casarões dos senhores, construindo o calçamento, o presídio, a casa de comercialização dos escravos, o pier do porto, as igrejas etc. Creio que seja de extrema importância que um viajante apure o olhar ao chegar em Paraty e compreenda que toda a beleza apreciada é resultado de muito suor dos escravos.

A casa de comercialização dos escravos está à direita, com portas azuis, e fica próxima ao pier do porto e da Igreja de Santa Rita.
Escravos trabalhando no desembarque de telhas, por Jean Baptiste Debret. 1823. Aquarela. Museu Castro Maya.

Mas Paraty não se restringe ao Centro Histórico, e então vou contar um fato ocorrido no início dos anos 90, durante minhas idas quando atuava num levantamento na Fazenda Paraty-Mirim, que é uma propriedade do Estado. Mantive contato com o senhor Valentim, que na época teria uns 70 anos, era presidente da Associação de Moradores de Paraty-Mirim e foi o meu interlocutor com os moradores da área. O melhor de tudo ocorreu ao final do dia, eu cansado e o senhor Valentim, querendo prosear, começou a contar um “causo”. Avalie as referências desse senhor: ele é descendente direto das três senhoras negras que formaram o Quilombo do Campinho da Independência, em Paraty, e viveu toda a sua vida numa região alta da cidade, de onde, na direção oeste, via os contrafortes da serra do Mar e, na direção leste, a enseada de Paraty-Mirim.

Imagine o alto da serra do Mar e lá embaixo a cidade de Paraty. Os moradores do alto Paraty possuem esta visão.

Foto do site: https://saopaulointerior.com.br/2020/09/06/acesso-para-a-pedra-da-macela-em-cunha-e-liberado/.

O senhor Valentim, sua esposa e eu numa foto de 2011.

E então vamos a história do senhor Valentim. Vou ser breve. Desde pequeno ele e os moradores do quilombo viam, em noites de céu limpo e estrelas cintilantes, aparecer voando, desde o alto da serra do Mar, um pássaro com penas luminosas, que percorria o alto da cabeça de todos até pousar na enseada de Paraty-Mirim. Nesse momento mágico todos faziam um pedido ao “pássaro de fogo” e, quando ele aterrissava na enseada de Paraty-Mirim, uma luz tão forte surgia na linha do horizonte que o senhor Valentim e os outros quilombolas acreditavam que no local onde o pássaro afundava teria um poço de sedimentos movediços com a presença de ouro. O interessante é que eles denominavam esse fenômeno de “pássaro de fogo”. Será essa história real ou existe uma explicação científica? Isso é irrelevante, importante é que nas viagens algumas histórias singelas nos fazem repensar muitas ideias preconcebidas. Lembro-me de ter ficado muito emocionado.

O Quilombo do Campinho da Independência e, em destaque, a Igreja de São Benedito.

Mas vamos voltar para o Centro Histórico de Paraty, que é uma das cidades coloniais do Brasil mais bem preservadas, sendo proibido o trânsito de veículos motorizados, logo o melhor que se tem a fazer é dispor de um tênis e caminhar por suas ruas de calçamento pé de moleque. Mas por que esse é o nome desse tipo de calçamento? Muitos acham que seria pela semelhança com o doce de amendoim, mas na verdade a origem vem da maneira como cada pedra era assentada para dar forma ao calçamento das ruas, pois eram os escravos novos ou os “mulekes” – palavra de origem africana da língua quimbundo – que iam acertando cada pedra com os pés. Esse tipo de calçamento permitia o tráfego de carroças, carros de boi e tropas de cavalos ou burros, mas também facilitava o caminhar dos pedestres, que não precisavam andar na terra e na lama ao chover.

MAPA DO CENTRO HISTÓRICO DE PARATY.

Centro Histórico de Paraty com lindos casarios coloniais e ruas com calçamento
pé de moleque.
A rua do Fogo é uma das mais autênticas quanto ao calçamento pé de moleque.

Além de passear pelas ruas de Paraty visitando igrejas, galerias de arte e lojas de artesanatos locais, o viajante não pode deixar de comer uma boa moqueca de peixe e fazer um passeio de escuna pela baía de Paraty, que normalmente sai do pier às 10h ou 11h. Cada empresa que oferece esse tipo de passeio cumpre um roteiro, que tanto pode comtemplar as ilhas Comprida, dos Cocos e do Algodão como as praias Vermelha, da Lula e Saco da Velha. O roteiro é o menos importante, pois, para quem não conhece, tudo será novidade e tenha certeza de que vai ficar deslumbrado.

Barcos e escunas no pier de Paraty, com a igreja de Santa Rita ao fundo.

Algumas dicas são importantes: o passeio só ocorre com o dia bonito, com sol e sem possibilidade de chuva, do contrário os barqueiros cancelam o passeio; outro aviso imprescindível é de não esquecer o protetor solar e o repelente de insetos, pois é uma região de muito mosquito; e a última dica é de não beber muito durante o trajeto, pois pode enjoar na escuna e perder os momentos prazerosos do passeio com um porre. Vou confidenciar que comigo já ocorreram duas das situações relatadas. A primeira foi num passeio à enseada de Paraty-Mirim, com amigos, quando mosquitos picaram minha mão, que ficou bem inchada, e tive que ir ao posto de saúde; e a segunda situação foi que, num passeio de escuna, eu nem bebi tanto, mas ao desembarcar na praia Vermelha dei um pequeno vexame… 

A praia Vermelha é um verdadeiro paraíso.

Paraty é uma cidade em movimento constante e fica difícil indicar ateliês de artistas em geral, quer pintores, ceramistas, talhadores de peças em madeira, estilistas e outros, portanto achei melhor indicar um site de Paraty que lista alguns ateliês que talvez ainda se encontrem abertos. O site dá a possibilidade de ver os blogs pessoais de cada artista. O site é: http://www.paraty.com.br/arte.asp.

Para quem não sabe, nos dias de lua cheia ocorre a maré montante, e as águas da baía de Paraty entram pela cidade provocando poças nas ruas que ficam mais próximas do litoral. As águas começam a entrar a partir do largo de Santa Rita. A beleza dos casarios fica refletida nas ruas com a cheia da maré. É um lindo momento para belas fotos, quando se fica encantado com os reflexos das paredes dos casarões coloniais que a água do mar desenha à medida que ocorre o avanço da maré. Paraty foi construída abaixo do nível do mar, por isso às vezes vira uma “Veneza brasileira”.

Bela imagem da maré montante enchendo as ruas com calçamento pé de moleque.
Um lindo casario colonial refletido nas águas da maré cheia.

Algo interessante, que talvez alguns gostem, é a proposta do artista plástico Lauro Monteiro, que criou o Sketchtour Paraty – “Caminhos do Brasil Imperial”. Trata-se de um passeio por Paraty com o objetivo específico de desenhar as paisagens preservadas do Centro Histórico que lhe valeram o reconhecimento, pela Unesco, como patrimônio cultural e natural da humanidade. A ideia deu tão certo que Lauro Monteiro vem agendando grupos de três a cinco pessoas para passeios de três dias, em dois períodos do ano: no primeiro semestre, de 10 de janeiro a 10 de abril, e no segundo semestre, de 10 de junho a 10 de setembro. Ele tem espaço de hospedagem nos chalés de seu ateliê, localizado na Estrada Paraty-Cunha, 3.905. Seu telefone de contato é: (24) 3371 9586. O site do artista: http://lauromonteiroatelier.blogspot.com/. O e-mail: lauromonteirofilho@gmail.com.

O ateliê de Lauro Monteiro na estrada Paraty-Cunha.
O artista plástico Lauro Monteiro e dois alunos.
Lindo casarão colonial na rua Fresca.
Igreja Nossa Senhora das Dores, na rua da Capela, litoral de Paraty.

Foto do site: https://viagemeturismo.abril.com.br/cidades/paraty-5/.

A Festa Literária Internacional de Paraty – Flip – é um evento de extrema importância, pois alçou Paraty como um novo território internacional das letras. Ela surgiu como uma proposta difícil de viabilizar, já que a cidade fica distante das capitais, mas deu muito certo. A estreia foi em 2003 e desde então só tem crescido e fez Paraty ocupar o espaço da literatura, da arte e da cultura no panorama nacional. Cada edição homenageia um autor brasileiro  e reúne um time de escritores, de diferentes origens e perspectivas, para se encontrar com o público em Paraty. A Flip é uma ideia vigorosa que transformou a cidade.

A Festa Literária Internacional de Paraty – Flip – é um evento de extrema importância para a cidade.
A descontração domina os dias da Festa Literária Internacional de Paraty – Flip.

Para concluir com chave de ouro esta descrição de Paraty, vou ressaltar que existem várias praias incrivelmente belas por toda a extensão litorânea do município, já que os cordões arenosos se localizam próximos de encostas rochosas arborizadas e pontuando aqui e ali temos pequenos cabos ou promontórios rochosos que aumentam a beleza do litoral. É importante esclarecer que grande parte do município de Paraty é constituída de Áreas de Proteção Ambiental, Reservas Ecológicas Estaduais ou Unidades de Conservação que foram decretadas ou solicitadas no governo de Leonel Brizola, com o objetivo de preservar esse território de interesses contrários aos de manter intacta a natureza. A mais importante é a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu, ou APA de Cairuçu, que foi criada através do Decreto nº 89.242, de 27 de dezembro de 1983. Nesse momento eu era geógrafo da Secretaria de Estado de Assuntos Fundiários.

Área de Proteção Ambiental de Cairuçu, ou APA de Cairuçu, em Paraty.

Para confirmar a dificuldade da preservação ambiental em Paraty, destaco este trecho da Associação do Ministério Público do Meio Ambiente sobre a APA de Cairuçu.

“Perto da Praia Vermelha, dentro do limite da APA de Cairuçu, está uma luxuosa casa dos herdeiros do Roberto Marinho. Na praia de Santa Rita, um segurança armado protege a propriedade e se aproxima com olhar ameaçador, quando o barco do ICMBio passa perto. Construída fora dos parâmetros do plano de manejo, a mansão foi questionada na Justiça. O processo dura anos.Segurança intimidando banhista é apenas um dos exemplos de privatização de praias, que são bens da União. (trecho de um texto de 2012 extraído do site: https://abrampa.jusbrasil.com.br/noticias/100510725/apa-cairucu-quando-a-protecao-gera-atentados-a-bomba?ref=amp ).

Voltando a comentar sobre as belas praias, apresento fotos da minha última visita a Paraty, em 2011. Como estava de carro, pude passar um dia na praia do Meio, que fica no bairro de Trindade, uma região linda que se encontra dentro da APA de Cairuçu, mas, pelo que vi em 2011 e soube recentemente, vem sofrendo muito com ocupações irregulares na estreita faixa de terra onde é possível se construir entre a encosta e o mar. Uma pena!

Praia do Meio, no bairro de Trindade, dentro da APA de Cairuçu.
Rochas erodidas e uma escuna na praia do Meio, no bairro de Trindade, dentro da APA de Cairuçu.

Encerrando nosso passeio por Paraty, gostaria de informar que espero escrever mais um post sobre essa linda cidade colonial do estado do Rio de Janeiro, pois ainda faltou citar os alambiques da estrada Paraty-Cunha, a presença de uma aldeia de índios guaranis, apresentar outros problemas de disputa de terras no município e a luta dos pescadores da praia do Sono. Paraty é uma cidade em ebulição e constante transformação que merece uma visita de uma semana para conhecer melhor a vida dos nativos.

A imagem de destaque foi retirada do site: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Igreja_de_Santa_Rita,_em_Paraty.JPG

Compartilhe com os seus amigos.
Share on Facebook
Facebook
Email this to someone
email
Share on LinkedIn
Linkedin
Print this page
Print

10 thoughts on “Paraty – histórias e beleza natural”

  1. Ronaldo, parabéns pelo blog e por compartilhar as histórias de Paraty. Fiquei muito emocionada em ver sua foto com o Sr. Valentim e sua Esposa D. Madalena. Lembro-me bem da viagem a trabalho quando ele nos contou sobre esta história do pássaro de fogo. Fui lá uma segundo vez numa entrevista para minha dissertação de mestrado e pedi que me contassem novamente, só para tê-la gravada. Anos depois, numa viagem também a trabalho ao Quilombo de São José em Valença, ouvi uma história semelhante, só que o pássaro de fogo se escondia numa pedra nas montanhas. Fiquei pensando, qual seria a razão de duas comunidades quilombolas compartilharem lendas e histórias tão semelhantes? Nesta horas fico triste ter apenas uma formação técnica, pois se tivesse estudado Antropologia talvez pudesse responder.
    Grande abraço.

    1. Amiga agrônoma Marisa, fiquei muito feliz de suas palavras que lembram dos nossos momentos de técnicos de um órgão onde fomos felizes e desenvolvemos trabalhos muito bons: titulação do Quilombo, a luta contra o despejo na Praia do Sono, as lutas contra apropriações indevidas de praias públicas, a sua vitalidade nos apoios técnicos para o reconhecimento das APAS e Reservas Estaduais, enfim muito esforço com resultados positivos contra a usurpação. Grande abraço!!!!

    1. Tania, acredito que uma nova seguidora do blog. Agradeço de coração suas palavras e se gostou do post que tal se inscrever no blog para receber as novidades. Em quase todos os meus posts eu tento fazer com o meu leitor viaje comigo, o post de Rioja Alavesa, na Espanha, a minha proposta de levá-los a viajar ficou muito bem explicitada. Leia outros post e comente. Obrigado!!!

    1. Amiga Isis, Paraty é um paraíso e de tão complexo creio que ainda terei que escrever outro post. Parece que você conhece bem Paraty…

    1. Raisa, adoro que você e outros seguidores gostem do blog, tenho feito tudo com muito carinho. Paraty é um paraíso. Um abraço!!!!!

    1. Orozimbo, seguidor do blog, adoro que você e outros seguidores gostem do blog, tenho feito tudo com muito carinho. Paraty é um paraíso. Um abraço!!!!!

Gostou? Deixe aqui o seu comentário.